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Ontem. Hoje. Sempre

Ar gélido. Respiração pesada. Pensamentos a mil.

Eis o que precede toda a loucura; E ele sabia disso. Estava tomado pelo terror, e nada podia fazer para evitar isso. Como poderia ser? Que loucura havia cometido? Não via o erro em suas ações, mas certamente outros o viam. E faziam-no pagar por isso, como o pior dos criminosos. 

Em verdade, naquele instante indizível, ele era um criminoso. Acorrentado pés e mãos, roupas rasgadas, sujas de sangue e lama. Em meio à sujeira e a dor escondia-se um grande homem, humilhado por lobos sedentos disfarçados de ovelhas. Ele os encarava, eles escarneciam e apontavam: "Morte ao ímpio! Queimem o herege!" Era fácil dizer isso, olhar em seus olhos e proferir mentiras quando se tem o rosto coberto por máscaras. Mas ele não era assim. Prostrava-se como o homem que fora e sempre seria, não importava o que acontecesse ao seu corpo ou à sua alma. Havia prometido, e sua honra jamais lhe deixaria trair-se. 

Sentiu um empurrão, indicando que deveria caminhar. Ergueu a cabeça, decidido. Certo de que iria morrer ali, sem conhecer ao menos sua falta. E seu coração doía. Não por ter medo da morte. Não, ele havia encarado-a de frente por tantas vezes que podia-se dizer que essa era sua amiga fiel. Não, seu terror provinha de outra fonte, outra que ninguém deveria ameaçar. Cujo simples pensamento lhe fazia ter lembranças felizes e ânsias de escapar dali, ir de encontro ao seu destino. 

Mas quem poderia dizer que aquele não era seu destino? Ele não sabia responder. Algo em seu coração dizia que aquilo estava errado, que nada ali se encaixava. E ele possuía a força para libertar-se. Mas preferiu não o fazer. Permitiu-se sentir o vento reconfortante da noite, e assim preparar-se para o seu último momento de vida. 

Colocaram-no diante de um magistrado, que nada disse. Um mero sinal, fora o necessário. E segundos após, lá estava ele, indo em direção ao abismo, pronto para saltar com sua amiga tão fiel, tão antiga... Mas dessa vez, ele seria a vítima, e não o arauto da dor. Riu-se da ironia, mas não se deixou abater: Isso iria acontecer, cedo ou tarde. Bastava que ele aceitasse isso. E assim como o espírito de luta o impelia ao combate, um mísero sentimento o fazia sentir-se bem com aquilo tudo. Finalmente teria o descanso que merecia. Sem dor, sem noites acordadas pensando no próximo movimento. Sem mais precisar preocupar-se com aquilo ou isso... Finalmente conheceria a paz. 

Não percebera quando chegara ao ponto final. Olhou para baixo, e não conseguiu ver o fundo: Mais do que o esperado, assim não teria um funeral digno. Muito provável que seus inquisidores houvessem pensado nisso de propósito. Medíocres. Calou-se, evitou a fúria. E sem aviso prévio, jogou-se rumo ao desconhecido. 

 Mas o destino não haveria de abandoná-lo. Não naquele momento.

Ele abriu os olhos. E viu que não mais caia. Estava de pés firmes no chão, surpreso com o acontecido. E sentia-se bem, em paz, feliz. Era assim que um morto sentia-se no primeiro momento? 

-Não, você não está morto. 

Olhou para trás, e espantou-se com a visão. Uma belíssima mulher ali se apresentava, talvez a mulher mais bela que ele já pusera seus olhos. Apresentava-se em um vestido completamente branco que caía perfeitamente em seu corpo, quase como se desejasse causar a cobiça dos homens. Cabelos negros como a noite, olhar profundo capaz de modificar o planeta inteiro. Ele possuía a certeza: Ela estava lendo sua mente. Envergonhou-se por isso, pois ela agora era seu unico pensamento. Baixou a cabeça devagar, tentando evitar o constrangimento. Ela tocou-lhe no queixo, e levantou seu olhar; Agora ela encarava-o olho no olho. Abraçou-lhe, depois beijou-lhe o pescoço, e então beijou-o nos lábios. Fora delicada, algo que ele jamais conhecera. E antes mesmo que ele pudesse perguntar, ela deu-lhe a resposta que tanto ansiava naquele momento.

-Você talvez não se lembre de mim, mas eu me lembro de você. Fizemos uma promessa, anos atrás, de estarmos juntos, não importasse a adversidade. Você deu luz à minha vida, mudou-a completamente. E agora, eu mudarei a sua. Isso que você viu foi apenas um pesadelo, o manifestar de seu subconsciente. Olhe para dentro de si, e veja a verdade. 

E ele entendeu. Flashes e flashes vieram à sua mente: Um abraço em frente algo que parecia ser uma escola, os dois sentados no chão contemplando o céu estrelado, a promessa dos anéis feita há tanto tempo. E apenas uma frase: "Nada mais existe, a não ser você". Ele novamente abriu os olhos. E não mais estavam no abismo. Estavam agora em meio à selva de pedra que lhes era tão familiar. Um sofá de cor rubra, ele repousava sob o colo de sua amada, quando percebeu o que havia acontecido. Ela apenas sorriu.  E sussurrou de modo que só ele pudesse ouvir: "'Não importa aonde você esteja, eu vou proteger você'. Palavras suas, que uso nesse momento. Eu mato e morro por ti, minha vida. Eu te amo mais do que tudo no mundo, e farei tudo pelo teu bem."

Ele também sorriu. Lembrava das palavras que dissera há alguns minutos atrás, e novamente fechou os olhos, certo que o sentimento não era apenas mútuo, mas digno de uma vida inteira. E então preparou-se. Desta vez, não para o caos. Agora ele estava certo que apenas a luz o alcançaria. Ela havia lhe dado a paz. E ele iria deleitar-se nesta paz, neste amor, nesta vida. Pelo resto da eternidade.


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